Por Luciana Veras (lveras@diariodepernambuco.com.br)
Em determinada página de Ensaio sobre a cegueira, o escritor português José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura em 1998) localiza os personagens do seu romance - homens e mulheres confinados em um antigo manicômio, cegos, incapazes de enxergar por causa da névoa branca que tirou a visão de todo mundo, menos da mulher do médico - em uma discussão sobre o que fazer depois que a violência se fez necessária: “… Os adjectivos não nos servem de nada, se uma pessoa mata outra, por exemplo, seria melhor enunciá-lo assim, simplesmente, e confiar que o horror do acto, só por si, fosse tão chocante que nos dispensasse de dizer que foi horrível. Quer dizer que temos palavras a mais, Quero dizer que temos sentimentos a menos, Ou temo-los, mas deixamos de usar as palavras que os expressam, E portanto perdemo-los”.
Na versão cinematográfica do cineasta brasileiro Fernando Meirelles - uma co-produção Brasil-Canadá-Japão com orçamento de US$ 25 milhões e distribuiçãopela Fox Film em cartaz a partir da amanhã no país inteiro -, palavras e sentimentos se aliam à imagem para criar uma experiência fílmica de imersão total no universo descrito por Saramago. Branco é o tom da fotografia engendrada por César Charlone, branca é a tez da atriz americana Julianne Moore, que interpreta a única pessoa que ainda vê, branco é o “mar de leite” em que nadam os outros personagens - o oftamologista (Mark Ruffalo), a mulher de óculos escuros (Alice Braga), o primeiro cego (Yusuke Iseya), a mulher do primeiro cego (Yoshino Kimura), o ladrão (o roteirista Don McKellar), o rapazinho estrábico (Mitchell Nye), o velho da venda preta (Danny Glover).
Ensaio sobre a cegueira teve locações no centro de São Paulo, em Montevidéu e em Gelph e Toronto, no Canadá. “Foram três anos de trabalho árduo. Para mostrar São Paulo vazia e crua, pegávamos as ruas às 2h, espalhávamos todo aquele lixo para filmar assim que aparecesse a luz, e às 14h tudo já estava recolhido, porque a cidade tinha que funcionar”, descreve a produtora Andréa Barata Ribeiro, da O2 Filmes, que responde pelo filme ao lado da empresa nipônica Bee Vine e da canadense Rhombus. A geografia, familiar aos brasileiros, é, no entanto, apagada de maneira tal que a cidade do filme lembra a cidade do livro, que por sua vez já lembrava não somente a Lisboa de Saramago, mas sim qualquer metrópole do mundo, passível de imergir na barbárie no segundo em que alguém perde a visão.
Ensaio sobre o cinema
Para o diretor Fernando Meirelles, Julianne Moore, atriz norte-americana de 47 anos, cultuada por interpretações corajosas em filmes como Magnólia e Longe do paraíso, é o “anjo branco que se perde” na selvageria em que se transforma o mundo em Ensaio sobre a cegueira. Durante a maratona de divulgação do longa-metragem (o quinto dele, um dos três que ela rodou em 2007), os dois falaram ao Diario. Ela com muito entusiasmo (”gostei tanto daqui que trouxe meus filhos para a Amazônia, e é até meio bobo falar isso, mas no set éramos um grupo maravilhoso”), ele com muito bom humor (”foi o filme mais difícil da minha carreira, sofri pra caramba, quero que o próximo seja bem fácil”). Abaixo, trechos da entrevista.
Entrevista // Fernando Meirelles
“Meu Deus do céu, será que alguém vai se interessar por isso?”
O que ficou de fora no processo de montagem?
O que as pessoas vão ver é o 14º corte. É um processo normal no cinema. Meus outros filmes começavam com um corte inicial de quase três horas. Aí você vai cortando, fazendo uma versão aqui, outra ali, até jogar fora 40 minutos. No caso desse filme, tirei uma seqüência de estupro extremamente violenta. Ao mostrar para o público-teste, houve uma reação muito forte. As pessoas saíram da sala e senti que a cena, em vez de ajudar o espectador a se inserir, na verdade desconectava-o do filme.
Como filmar a cegueira?
A gente usou uma solução até óbvia, que é a imagem bem branca, saturada, dissolvida no branco. Tem algums truques para desconstruir um pouco a imagem e assim colocar o espectador no mundo da cegueira. Por exemplo, usamos muito reflexos. A platéia começa a achar que é imagem, mas é virtual. Também usamos planos mal enquadrados, como se a câmera fosse operada por um cego, e também cenas fora de foco. Lá pelos últimos 40 minutos, a imagem e o som praticamentese dissociam. Você vê uma imagem e o ruído vem de outro lugar.
Há comparações entre este e seus filmes anteriores?
Tanto Cidade de Deus como O jardineiro fiel são baseados numa realidade, são quase documentários. Qualquer um entra no cinema e já reconhece a situação das favelas brasileiras ou da África e da indústria farmacêutica. Em Ensaio sobre a cegueira, não. É uma doença que não existe nem nunca vai existir, uma cidade genérica, personagens sem nome. Lendo o roteiro eu falava ‘meu Deus do céu, será que alguém vai conseguir se interessar por isso?’. No livro é mais fácil, o próprio Saramago assume a narrativa, pode entrar na cabeça do leitor. No filme não tem isso. Resolver a questão do roteiro foi o mais difícil. Sofri pra caramba. Quero que o próximo seja bem fácil.
Entrevista // Julianne Moore
“Para sobreviver, às vezes aceitamos qualquer coisa”
Quais foram as demandas que o papel lhe impôs?
Foi um desafio enorme. Eu estava bem interessada em trabalhar com Fernando, porque em seus filmes você não vê os atores, e sim pessoas, o comportamento normal de um ser humano. Como atriz, cabe a você determinar um arco para cada personagem: há um ponto de partida e o final. É simples assim. Nesse filme, eu quis mudar esse processo. Como ocorre no livro, eu não queria saber como minha personagem iria reagir ou o que ela faria. Era essencial me manter num lugar onde eu não me sentisse como se já soubesse de que maneira minha personagem iria reagir. Era importante para mim, e para ela, que eu me sentisse uma observadora, para depois, finalmente, agir como uma participante.
De que maneira você percebe o comportamento dos personagens?
Nós temos um instinto de sobrevivência e, por causa desse instinto, às vezes aceitamos qualquer coisa. A história já nos mostrou isso, por meio dos crimes de guerra e dos campos de concentração. As pessoas acreditam, de fato, que existe um governo, que tudo vai se ajeitar, que há algum tipo de ordem, mas o que Saramago e Fernando mostram é que a linha da civilização é muito tênue. Existe uma crença, que acho que é muito ditada pelo cinema, de que no meio do caos alguém virá nos salvar. Batman ou Bruce Willis# Ou mesmo a mulher do médico. Mas a mulher do médico não é Batman. Ela não é um super-herói. Ao pensar no Holocausto, pergunto: por que durou tanto tempo? Milhões morreram e, em vez de fingir que nada aconteceu, temos que nos responsabilizar. Reconhecer que isso existe e que muitas vezes nem entendemos.
Houve alguma preparação especial?
Bem, quando me encontrei com Fernando ele disse que eu devia engordar um pouco e cortar o cabelo. Aí eu respondi que achava que a personagem devia ser loira. Ele disse que não, mas eu pintei meu cabelo mesmo assim (risos). Senti que ela tinha que ser loira, porque seria o tom ideal para que tudo fosse embranquecendo de tal forma que as cores sumissem. Se ela fosse ruiva como eu, isso ia ficar maisdifícil.
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